Ausente
Ausente! A manhã em que me lanço
mais longe do longínquo, ao Mistério,
como seguindo inevitável traço,
teus pés resvalarão no cemitério.
Ausente! A manhã em que à praia
do mar de sombra e do calado império,
como um pássaro lúgubre eu parta,
será o branco panteão teu cativeiro
Terá descido a noite em teus olhares;
e sofrerás, e tomarás então
penitentes brancuras laceradas.
Ausente! E em teus próprios sofrimentos
há de cruzar entre um chorar de bronzes
uma baderna de arrependimentos!
ouve tua massa, teu cometa
ouve tua
massa,
teu cometa, escuta-os;
não gemasde memória, gravíssimo cetáceo;
ouve a túnica em que dormes,
ouve tua nudez, dona do sono.
Relata-te agarrando-te
do rabo de fogo e aos chifres
onde acaba a crina sua atroz corrida;
irrompe, mas em círculos;
forma-te, mas em colunas mancas;
descreva-te atmosférico, ser de fumaça,
a passo redobrado de esqueleto.
A morte? opõe-lhe todo teu vestido!
A vida? opõe-lhe parte de tua morte!
Besta venturosa, pensa;
deus desgraçado, arranca tua fronte.
Logo, falaremos.
Intensidade e altura
Quero
escrever,
mas só sai
espuma,
quero dizer muitíssimo e me atolo
não há cifra falada que não seja suma
não há pirâmide escrita, sem talo.
Quero escrever mas me sinto puma;
quero laurear-me, mas me acebolo.
Não há toz falada que não chegue a bruma,
não há deus nem filho de deus, sem embalo.
Vamos, então, por isso, comer erva,
carne de pranto, fruta de gemido,
nossa alma melancólica em conserva.
Vamos! Vamos! Estou ferido;
vamos beber o já bebido
vamos, corvo, fecundar tua corva.
Os Arautos Negros
Há golpes na vida, tão fortes... Não sei não!
Golpes como do ódio de Deus; como se diante deles,
a ressaca de todo o sofrimento
se encharcasse na alma... Não sei não!
São poucos; mas são... Abrem rugas escuras
no rosto mais fero e no dorso mais forte
Serão talvez os potros de bárbaros átilas;
ou os arautos negros a mando da Morte
São as quedas profundas dos Cristos da alma,
de alguma adorável fé que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
de algum pão que na porta do forno nos queima.
E o homem... Pobre... pobre! Volta os olhos, como
Quando desaba um tapa sobre nosso ombro;
volta os olhos loucos, e todo o vivido
se encharca, como poça de culpa, no olho escombro.
Há golpes na vida, tão fortes... Não sei não!
s/título
E se depois de tantas palavras, não sobrevive a palavra!
Se depois das asas dos pássaros, não sobrevive
O pássaro parado!
Mais valeria, na verdade,
que o devorassem todo e acabemos!
Ter nascido para viver de nossa morte!
Levantar-se do céu à terra
por seus próprios desastres
e espiar o momento de apagar com sua sombra sua treva!
Mais valeria, francamente,
que o devorassem todo e tudo bem...!
E se depois de tanta história, sucumbimos,
não já de eternidade,
mas de coisas sensíveis, como estar
em casa ou pôr-se a remoer!
E se logo notamos,
De uma hora para outra, que vivemos,
a julgar pela altura dos astros,
pelo pente e as manchas do lenço!
Mais valeria, na verdade,
que o devorassem todo, desde já!
Se diría que temos
Num dos olhos muita pena
E também no outro, muita pena
E nos dois, quando olham, muita pena
Então... Claro!... Então¡... nem palavra!
poemas de Trilce
I
Quem faz tanta balbúrdia, e nem deixa
testar as ilhas que vão ficando
Um pouco mais de consideração
tão logo será tarde, cedo,
e se aquilatará melhor
o guano, a simples calabrina tesórea
que brinda sem querer,
no coração insular,
salobre alcatraz, a cada hialoidea
grupada.
Um pouco mais de consideração,
e o adubo líquido, seis da tarde
DOS MAIS SOBERBOS BEMÓIS
E a península pára
de costas, acabrestada, impertérrita
na linha mortal do equilíbrio.
II
Tempo Tempo.
Meiodia estancado entre relentos
Emburrada bomba de um quartel qualquer
tempo tempo tempo tempo.
Era Era.
Galos cantam ciscando em vão.
Boca do claro dia que conjuga
era era era era.
Amanhã Manhã.
O repouso quente que há de ser.
Pensa o presente me guarda para
amanhã manhã manhã manhã
Nome Nome.
O que se chama o que nos fere?
Se chama Omesmo que padece
nome nome nome nomE.
XIII
Penso em teu sexo.
Simplificado o coração, penso em teu sexo
diante do raiar maduro do dia.
Aperto o botão da fortuna, está no ponto.
E morre um sentimento antigo
degenerado em senso.
Penso em teu sexo, sulco mais fecundo
e harmonioso que o ventre da Sombra,
ainda que a Morte conceba e paira
do próprio Deus.
Oh consciência
penso, sim, numa besta livre
que copula onde quer, onde pode.
Oh , escândalo de mel dos crepúsculos
Oh estrondo mudo
Odumodnortse!
XLV
Me desvinculo do mar
quando vêm as águas a mim
Saiamos sempre. Saboreemos
a canção estupenda, a canção dita
pelos lábios inferiores do desejo.
Oh! Prodigiosa castidade
Passa a brisa sem sal.
Ao longe farejo os tutanos
ouvindo o tanteio profundo, à caça
de teclas de ressaca.
E se assim dermos de cara
com o absurdo,
nos cubriremos com o ouro de não ter nada,
e cortaremos a asa desnascida
da noite, irmã
desta asa órfã do dia
que já não exala a força de ser asa.
XLVIII
Tenho agora 70 sóis peruanos.
Pego a penúltima moeda, a que soa
69 vezes púnicas.
e eis aqui, ao finalizar seu rol
queima-se toda e arde flamejante,
flamejante,
redonda entre meus tímpanos alucinados.
Ela, sendo 69 esbarra em 70;
logo escala 71, rebate em 72.
E assim se multiplica e espelha impertérrita
em todas as demais entrosas.
Ela, vibrando e forçando,
urrando gritttos,
soltando árduos, esporroteantes silêncios,
urinando-se de natural grandeza,
em unânimes postes surgentes,
acaba sendo os algarismos todos,
a vida inteira.
LXXIII
Triunfou outro ai. A verdade está ali.
E quem tal atua, não vai saber
amestrar excelentes digitígrados
pra ratazana? Sim...Não...?
Triunfou outro ai e contra ninguém.
Oh exosmose de água quimicamente pura.
Ah meus austrais. Oh nossos divinos.
Tenho pois direito
a estar verde e contente e perigoso, e a ser
o cinzel, medo do bloco denso e extenso;
a meter a pata e o riso.
Absurdo, só você é puro.
Absurdo, este excesso só perante você
sua de dourado prazer.
LXXV
Estão mortos.
Que modo estranho de estarem mortos. Qualquer um diria que não estão. Mas, na verdade, estão mortos.
Flutuam nadamente atrás daquela membrana que, pêndula do zênite ao nadir, vem e vai de crepúsculo a crepúsculo, vibrando ante a sonora caixa de uma ferida que em vocês não dói. Digo-lhes, pois, que a vida está no espelho, e que vocês são o original, a morte.
Enquanto a onda vai, enquanto a onda vem, quão impunemente alguém está morto. Só quando as águas se quebram nas margens defrontadas e se dobram e dobram, então se transfiguram e acreditando morrer, percebem a sexta corda que já não lhes pertence. Estão mortos, não tendo jamais vivido antes. Qualquer um diria que, não sendo agora, em outro tempo foram. Mas, na verdade, vocês são os cadáveres de uma vida que nunca foi. Triste destino. De não terem sido senão mortos sempre. O ser de folha seca, sem ter sido verde jamais. Orfandade de orfandades. E, no entanto, os mortos não são, não podem ser cadáveres de uma vida que ainda não viveram. Eles morreram sempre de vida.
Estão mortos.
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